Beyoncé rouba a cena na Fórmula 1 em Las Vegas e redefine presença feminina e negra nas pistas
- Da Redação

- há 7 dias
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A artista aparece no Grande Prêmio de Las Vegas com macacão de piloto da Louis Vuitton e reacende o debate sobre representatividade feminina e negra no automobilismo.
Por Valentina Souza

Beyoncé chega ao Grande Prêmio de Fórmula 1 em Las Vegas, no último sábado (22), como quem pisa em um território que sempre pertenceu mais aos homens do que às mulheres. Mas basta uma única aparição da artista para que essas fronteiras tradicionais comecem a rachar. Vestida com um macacão de corrida branco, ajustado ao corpo e bordado com detalhes pretos e vermelhos, ela caminha lado a lado com Jay-Z enquanto câmeras disparam em sequência, como se estivessem registrando um evento histórico. E, de certa forma, estão.
O look, assinado pela Louis Vuitton, traz no busto um logo dourado de cristal que reluz sob as luzes fortes da Strip de Las Vegas. Beyoncé usa botas de salto, luvas vermelhas sem dedos e óculos aviador, compondo uma imagem que mistura velocidade, futurismo e glamour. A estética é pop, mas o gesto é político. É sobre ocupar espaços. Sobre reposicionar a figura da mulher preta em ambientes onde ela quase nunca foi convidada a brilhar.
Moda como narrativa política
Beyoncé sempre entendeu que moda não é detalhe, mas discurso. Ela veste macacão de piloto, não como fantasia, mas como afirmação. Em um universo que historicamente romantizou a masculinidade, ela surge como um corpo que carrega memória, resistência e poder. E faz isso sem pronunciar uma palavra.
A pesquisadora de cultura pop e moda racializada Keisha Brown descreve esse fenômeno com precisão.
“Toda vez que Beyoncé aparece, ela reorganiza imaginários. Quando uma mulher preta ocupa o espaço da velocidade, do risco e da tecnologia, ela amplia o que é possível para milhares de meninas”, afirma em entrevista à Pàhnorama.
Não é a primeira vez que Beyoncé altera a gramática pública de um evento esportivo. Desde o Super Bowl de 2016, quando homenageou o movimento Panteras Negras e enfrentou ataques racistas e políticos, a artista se tornou uma voz incontornável no diálogo entre cultura pop e justiça social. Seus figurinos, cuidadosamente alinhados ao discurso de cada etapa de sua carreira, são parte do que estudiosos chamam de “performatividade da presença”.
A presença feminina e negra nos bastidores da velocidade
Dados da FIA mostram que apenas 1 por cento das posições de alta liderança em equipes de Fórmula 1 são ocupadas por mulheres negras. Entre pilotos, essa presença é nula. No corpo técnico, mínima. No público geral, crescente, mas ainda subestimada. O automobilismo é um terreno de hegemonias e, ao mesmo tempo, uma vitrine em que símbolos importam.
Quando Beyoncé cruza o grid ao lado de Jay-Z e de figuras como Travis Scott, Lewis Hamilton e Michael Rubin, ela reposiciona a imagem da mulher preta nesse cenário e altera o imaginário coletivo sobre quem pertence ali. Não se trata apenas de um look marcante, mas de representatividade de impacto em um ambiente global transmitido para mais de 70 países.
Hamilton, único piloto negro na Fórmula 1 em toda a história, já disse em entrevistas que se sente frequentemente isolado. Ver uma artista como Beyoncé aparecer em Las Vegas com figurino inspirado em pilotos não é casual. É gesto estratégico. É construção simbólica.
O pop como força cultural
A geração jovem, que se informa por vídeos curtos e atualizações instantâneas, muitas vezes compreende política, comportamento e identidade por meio de ícones culturais. É por isso que as imagens rapidamente se espalham pelo TikTok e pelo Instagram. Em poucas horas, o macacão branco já está sendo replicado em desenhos, edições, fanarts e até em filtros não-oficiais.
Para muitos, é só entretenimento. Para outros, é um lembrete de como a cultura pop é capaz de tensionar estruturas sociais. Beyoncé não precisa discursar. Ela performa. E, ao performar, faz política.
O recado por trás das lentes
As fotos que circulam nas redes mostram Beyoncé no grid de voltas quentes da Pirelli, segurando um capacete preto, posando com Jay-Z e cumprimentando Hamilton. Mas o que mais chama atenção é o olhar firme, a postura decidida, a forma como ela ocupa o espaço. É presença, não ornamento. É narrativa, não acessório.
A estilista e pesquisadora brasileira Bruna Azevedo resume bem o impacto. “Quando Beyoncé chega a um evento como a Fórmula 1, ela desmonta o roteiro tradicional. Ela não está ali para caber, está ali para expandir.”
Beyoncé, Pop Star em Las Vegas
Em tempos de repetição cansada de discursos e imagens, Beyoncé traz algo que o Brasil e o mundo parecem buscar desesperadamente: reinvenção. Um lembrete de que não basta estar presente, é preciso ocupar. Não basta assistir, é preciso tensionar.







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