Quando o amor muda de forma: o fim do casamento de Ivete Sangalo e Daniel Cady revela sobre afeto, privacidade e a pressão por felicidade performática
- Ana Soáres
- há 3 horas
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Fontes exclusivas confirmam que o fim do casamento com Daniel Cady já era esperado entre os mais próximos, enquanto duas psicoterapeutas analisam os efeitos emocionais, o cuidado com os filhos e a pressão da vida pública.

Na noite da última quinta-feira, 27, o Brasil acompanhou o anúncio de um fim que não deixa de ser começo. Ivete Sangalo e Daniel Cady anunciaram o fim do casamento, encerrando uma história de 17 anos de convivência, projetos, filhos e uma parceria que parecia inabalável aos olhos do público, construída entre palcos, consultórios, viagens, alegrias, crises silenciosas e três filhos que seguem como o eixo mais luminoso da família: Marcelo, de 16 anos, e as gêmeas Marina e Helena, de 7. No comunicado oficial, os dois afirmam que a decisão é conjunta, conduzida com diálogo, respeito e foco absoluto nos três filhos que os conectam para sempre.
A notícia, no entanto, não surpreende quem acompanha o casal de perto. A equipe da Revista Pàhnorama ouviu fontes diretamente ligadas à rotina da artista, profissionais que transitam nos bastidores de shows, eventos e gravações; pessoas que convivem nos silêncios e nos bastidores onde a imagem pública dá lugar às vulnerabilidades reais.
Todas relatam que a separação era esperada. Há meses, afirmam, Cady aparecia cada vez mais distante da então esposa. Ivete, por sua vez, evitava tocar no nome do marido nos corredores e camarins. Em gravações recentes, chegou a solicitar que não fossem mencionados temas pessoais. Em Salvador, o assunto já circulava como certeza entre quem observa a vida da cantora para além dos palcos.
Uma fonte descreve que a viagem que os dois fizeram ao Peru, em março deste ano, teria sido uma tentativa madura e silenciosa de reconectar o casal. Não funcionou como desejavam. Outra pessoa próxima afirma que Ivete se agarrou à fé nos últimos meses para atravessar a dor íntima da decisão. Em agosto, segundo esse relato, ela já percebia que não havia mais caminho possível dentro da parceria, e que não continuaria tentando. Esfriou de ambos os lados, até que o anúncio oficial se tornou inevitável.
Este é o fato jornalístico. Mas há, também, o que ele provoca.
Ivete Sangalo: O peso da felicidade pública e o custo emocional da exposição forçada
O fim de um relacionamento público sempre oferece munição à curiosidade coletiva. Mas raramente nos convida a enxergar o que realmente importa. É aqui que a reflexão se impõe: o que significa separar-se quando se é mãe, mulher, artista e alvo permanente de expectativas sociais? O que significa reconstruir a própria vida sabendo que parte do Brasil projeta sobre você a fantasia de casal perfeito, família ideal, felicidade permanente?
A verdade (e qualquer psicoterapeuta confirmaria) é que separações maduras não são fracassos. São escolhas de honestidade emocional. São gestos de autocuidado. São a coragem de admitir que o amor muda de forma, e que manter uma estrutura familiar preservada não depende de permanecer casado, mas de permanecer inteiro.
Mulheres que se separam, especialmente quando têm filhos, conhecem de perto o peso desigual dessa travessia. Elas carregam as culpas históricas que o machismo insiste em depositar sobre seus ombros, enfrentam olhares que procuram culpadas, e ainda precisam lidar com a rotina, com a carreira, com o medo do julgamento social. É um processo que exige reconstrução interna, não performance pública.
E é impossível falar disso sem apontar para o comportamento invasivo de parte da imprensa e do público. A ânsia por detalhes íntimos, por certezas absolutas, por culpados e vilões não é apenas espetacularização; é violência simbólica. Tratar vidas reais como novelas é negar humanidade às pessoas que estão por trás dos holofotes. A imprensa tem responsabilidade (ética e social) de noticiar sem devorar.
Também precisamos olhar para a sociedade que consome esses temas com voracidade. Vivemos um tempo em que muitos se acostumaram a exibir uma vida impecável nas redes sociais, um brilho constante que não corresponde à vida vivida. A pressão por parecer feliz (sempre e apesar de tudo) esvazia as emoções verdadeiras, cria um ambiente onde a dor precisa ser escondida, e onde admitir o fim se torna quase um ato político.
A dor que não aparece nas fotos
Em meio à comoção gerada pela separação de Ivete Sangalo, um dos nomes mais potentes e afetivos da música brasileira, a Revista Pàhnorama conversou com as psicanalistas Ludmila Leo Pardo e Sônia Senra, especialistas em vínculos familiares e saúde emocional. As profissionais explicam como rompimentos amorosos vividos sob o olhar do país atravessam não apenas os envolvidos, mas também como a sociedade compreende família, cuidado e afeto.
Leia a entrevista.
Revista Pàhnorama: A separação de Ivete Sangalo gerou forte repercussão pública. O que acontece emocionalmente com uma pessoa que vive o fim de um relacionamento sob o olhar do país inteiro?
Ludmila Leo Pardo: Nós estamos falando de uma pessoa pública, que já tem a sua vida exposta, e estava certamente preparada para que sua vida particular virasse notícia. Quando falamos de uma exposição controlada, ou seja, a Ivete já esperava por essa exposição, o impacto é menor. Contudo, não podemos negar, que ter sua vida íntima exposta dessa forma toca em uma ferida egoica, isso significa que gera um sentimento de desproteção generalizado. A pessoa exposta sente que está vulnerável a qualquer outro tipo de exposição, isso pode reativar traumas infantis de quando nos sentimos em perigo e gerar uma sensação de estar sempre alerta. Certamente ter sua vida exposta, ainda que de forma esperada, é um fator gerador de ansiedade.
Sônia Senra: Todo fim de relacionamento é um luto. Por mais que estejamos falando de uma cantora de mais de 30 anos de carreira, ninguém foge do impacto de terminar um relacionamento, de vê-lo exposto à mercê de tantas informações infundadas. Pessoas lucrando com suas dores, e muitas vezes de situações que nem aconteceram da forma que estão dizendo. O impacto é catastrófico, haja visto que por mais apoio terapêutico e emocional que Ivete tenha ela é um ser humano e uma mulher que infelizmente ainda encontra o julgamento de ser uma mulher bem sucedida. Questionamentos em volta do que ela deveria ter feito para não terminar seu relacionamento, em um parâmetro machista de que a mulher precisa salvar seu relacionamento. Outro peso de julgamento patriarcal estrutural do pensamento social que discorre as "opiniões" sobre um relacionamento que ninguém deveria estar comentando. Porque no final ninguém nunca vai entender o outro lado da história, só Ivete e seu ex-marido.
Revista Pàhnorama: Separações envolvendo mulheres famosas costumam despertar julgamentos rápidos, boatos e pressões sociais. Por que isso ainda acontece?
Ludmila Leo Pardo: Porque ainda vivemos em um sistema patriarcal que culpabiliza a mulher pelo fracasso no casamento. A cultura religiosa também contribui para a crença de que a mulher virtuosa edifica seu lar e a tola o destrói. O maior medo que assombra a maior parte das mulheres que decidem se separar é o de serem vistas como a vilã da história.
Sônia Senra: Ainda vivemos em uma cultura que cobra perfeição das mulheres, especialmente das que ocupam espaços de destaque. Com artistas mulheres, o julgamento é imediato, cruel e muitas vezes injusto. Espera-se que elas administrem sucesso, maternidade, imagem pública e vida afetiva sem falhas. Quando uma separação ocorre, há uma tendência social de buscar culpadas e narrativas superficiais que não refletem a complexidade dos vínculos humanos. Isso mostra o quanto precisamos evoluir no letramento emocional e na empatia coletiva.
Pàhnorama: O que podemos aprender com separações tão acompanhadas pelo público? Existe algo que sirva de reflexão social?
Ludmila Leo Pardo: Com certeza temos muitas questões a refletir. Uma delas é a romantização do casamento. Houve um trabalho árduo do sistema patriarcal e da indústria cinematográfica em nos fazer acreditar que o casamento é o destino natural da mulher. Em "Para além do conto de fadas", de Elenise Roldan Melgarejo Damasceno, ela descreve como os filmes geram no inconsciente, e até conscientemente, a ideia de amor romântico e diferencia o que é real do que é imaginário. O casamento hétero cis é recheado de conflitos de gênero, frustrações, rotina e uma série de responsabilidades que não tem nada a ver com a magia da Disney.
Sônia Senra: Separações públicas nos ensinam sobre realismo afetivo. Relacionamentos mudam, ciclos se encerram, e isso não diminui o valor de ninguém. Também aprendemos sobre cuidado social. Cada vez que escolhemos acolher, e não julgar, ajudamos a construir uma cultura emocional mais madura. E quando artistas importantes passam por separações, isso abre espaço para que milhares de pessoas revisitem seus próprios processos com menos culpa e com mais consciência.
Pàhnorama: Quando há filhos envolvidos, como é o caso de Ivete, como esse processo se transforma? O que precisa de mais atenção emocional?
Ludmila Leo Pardo: A separação do casal em si, o fato de não serem mais um casal de "namorados" não impacta diretamente os filhos, o que influencia é como o processo é conduzido. As mudanças não podem acontecer de forma brusca e repentina, porque isso gera insegurança. A criança não entende o mundo como os adultos, até os 7 anos ela acha que tudo é culpa sua, então se presencia conflitos, ainda que não tenha nada a ver com ela, o filho acredita que estão brigando por causa dele, que ele fez algo de errado. O mais importante é ter atenção para que as crianças não tenham mudanças significativas na rotina, e se possível, manter a mesma rotina. Caso envolva grandes mudanças é aconselhável que elas sejam implementadas aos poucos.
Sônia Senra: Os filhos, em qualquer separação, precisam ser protegidos daquilo que não lhes pertence: conflitos, disputas e interpretações adultas. No caso de famílias públicas, o cuidado deve ser redobrado porque o ruído externo, como, comentários, boatos, exposição, pode criar um ambiente emocional inseguro. O mais importante é garantir estabilidade afetiva. Crianças e adolescentes precisam sentir que continuam sendo prioridade absoluta para ambos os pais e que o amor por eles permanece intacto. Quando a comunicação familiar é honesta, sensível e adaptada à idade de cada filho, o impacto tende a ser menor. Separações não destroem famílias. Elas apenas reorganizam a forma como o amor circula. O que define o bem-estar dos filhos não é o fim do casamento, mas a qualidade do afeto que continua existindo depois dele.
A separação de Ivete e Cady não é espetáculo. É vida real. É o fim de um ciclo e o começo de outro. É sobre dois adultos que escolhem a honestidade como caminho para preservar o que realmente importa: os filhos, a saúde emocional e o respeito mútuo.
E talvez seja justamente isso que este momento do Brasil precise revisitar. A capacidade de olhar para o outro com menos voracidade e mais humanidade. A capacidade de entender que casais mudam, famílias se transformam, e erros e acertos fazem parte de qualquer história.
Mas deixo uma pergunta, de jornalista e de mulher que já acompanhou separações, dores e renascimentos ao longo de meio século de vida e quase trinta anos de profissão:
Se até quem vive sob os holofotes tem coragem de admitir quando algo precisa mudar, por que nós (enquanto sociedade) ainda insistimos em exigir perfeição onde deveria haver humanidade?
A nós, que assistimos de fora, cabe algo simples, porém raríssimo: respeito. Que eles sigam fortalecidos pelo que construíram e pelo afeto que permanece. E que nós aprendamos, enfim, a não confundir o direito à informação com o vício da invasão.



