Tragédia no CEFET Maracanã: quem eram Allane Pedrotti e Layse Pinheiro
- Ana Soáres
- há 1 hora
- 4 min de leitura
Elas avisaram. O sistema ignorou. E o Brasil vê nascer mais duas mártires da misoginia institucional

O Rio de Janeiro dormiu menos na noite de 28 de novembro. O país inteiro perdeu algo.
No fim da tarde de uma sexta-feira que parecia comum no CEFET Maracanã, duas mulheres, duas profissionais brilhantes, duas vidas inteiras em curso, foram assassinadas dentro da instituição por um ex-servidor que, logo depois, tirou a própria vida.
Os nomes que agora ecoam como denúncia e luto são Allane de Souza Pedrotti Mattos e Layse Costa Pinheiro.

Ambas eram reconhecidas pela excelência profissional, pelos talentos múltiplos, pela dedicação à educação pública e pelo impacto real no cotidiano de centenas de alunos e colegas.
Ambas foram assassinadas com crueldade num espaço que deveria protegê-las.
Ambas foram vítimas diretas de um homem que, segundo relatos e indícios investigados pela polícia, não aceitava ser chefiado por mulheres.
Não há como suavizar.
Não há como contornar.
Não há como romantizar.
O que aconteceu no CEFET é mais do que um crime.
É um espelho doloroso do Brasil.
Quem era Allane: a educadora, a artista, a mulher que transformava mundos

Allane de Souza Pedrotti Mattos tinha um currículo que transbordava vida.
Chefe da equipe pedagógica e acadêmica da Direção de Ensino do CEFET-RJ, ela atuava na Divisão de Acompanhamento e Desenvolvimento de Ensino, assessorando tanto o Ensino Superior quanto a EPTNM nos oito campi do estado.
Era formada em Pedagogia pela UFRJ. Doutora em Letras pela PUC-Rio.
Uma intelectual rara, dessas que conseguem unir profundidade acadêmica e afetos cotidianos.
Mas Allane não cabia só no campo pedagógico. Allane também era música.
Cantora. Pandeirista. Compositora.
Publicava versos, melodias e sentimentos nas redes.
E o mais cruel de tudo: vinte e quatro horas antes de ser assassinada, ela postou poesia e música, como se seu coração buscasse respirar um pouco no meio da rotina.
Não poderia imaginar que aquelas seriam suas últimas palavras públicas.
Colegas a descrevem como brilhante, sensível, gentil, firme quando necessário e absolutamente comprometida com o impacto social da educação pública. Allane era dessas profissionais que fazem falta antes mesmo de ir embora.
Quem era Layse: a psicóloga que dedicou a vida à saúde mental escolar

Layse Costa Pinheiro, 40 anos, psicóloga, servidora pública federal desde 2017, trabalhava na psicologia escolar do CEFET-RJ.
Formada pela UERJ. Pós-graduada em Gestão de Pessoas.
Atendia adolescentes e adultos. Fazia palestras. Era consultora. Ajudava famílias e professores.
Layse lidava diariamente com crises emocionais e conflitos escolares. Acolhia, orientava, prevenia, sustentava.
Era reconhecida pela seriedade, pelo senso de justiça, pela delicadeza e pela empatia.
É irônico, cruel e devastador que a psicóloga que ajudava a reparar danos emocionais tenha sido morta por alguém cuja instabilidade deveria ter sido contida por protocolos institucionais e médicos que falharam.
O nome do assassino: João Antonio Miranda Tello Ramos Gonçalves, 47 anos
A polícia confirma: o autor dos assassinatos é João Antonio Miranda Tello Ramos Gonçalves, 47 anos, ex-funcionário da instituição.
Segundo relatos de servidores, João apresentava comportamento desestabilizado.
Expressava ressentimento contra mulheres em posição de liderança.
E, de acordo com inúmeros depoimentos, não aceitava ser chefiado por mulheres e se considerava injustiçado por elas.
A investigação caminha nesse sentido.
O feminicídio institucionalizado é mais do que uma hipótese. É uma linha central.
Mesmo assim, João teve acesso ao espaço. Circulou. Entrou armado.E matou.
O sistema permitiu.
O Estado permitiu.
A instituição permitiu.
E o resultado é irreversível.
CEFET: O crime como sintoma da cultura misógina que cresce sem freio
Não é possível ignorar o contexto.
Há um crescimento alarmante de discursos machistas, misóginos e violentos, amplificados por comunidades online, incluindo o universo redpill, que segue repetindo a narrativa de que homens fracassam devido a mulheres e que o empoderamento feminino seria uma ameaça ao protagonismo masculino.
Essa cultura radicaliza inseguranças, legitima violências e oferece justificativas prontas para homens que já caminham na borda do abismo psicológico.
O país vive uma epidemia silenciosa: a soma de misoginia e adoecimento mental sem acompanhamento adequado.
A junção é explosiva.
E mortal.
Quando o Estado falha, mulheres morrem
O Brasil tem políticas de proteção à mulher. Tem equipamentos públicos. Tem leis.
Mas tudo isso se torna cinza quando não é aplicado.
O caso do CEFET evidencia:
• falha institucional de segurança
• falha médica na avaliação do agressor
• falha na aplicação de protocolos de afastamento
• falha governamental em garantir ambientes seguros
• falha coletiva em reconhecer sinais de perigo
Há perguntas que precisam ser respondidas urgentemente.
Como alguém em grave instabilidade emocional circula sem restrição?
Como um ex-funcionário armado entra numa instituição pública?
Quem permitiu?
Quem ignorou alertas?
Onde estava o sistema de prevenção?
E, sobretudo, até quando mulheres vão morrer porque instituições não sabem lidar com homens que não aceitam ser liderados por elas?
O luto que se transforma em memória e denúncia
Allane e Layse eram queridas, admiradas, indispensáveis.
Pessoas reais, com histórias reais.
Suas famílias agora vivem um luto que não pode ser explicado. Seus amigos tentam juntar fragmentos. Seus alunos tentam entender o que a escola não conseguiu evitar.
O Brasil perde duas vidas que faziam diferença.
Perde talento.
Perde sensibilidade.
Perde futuro.
E perde, sobretudo, a chance de ter um país mais seguro para mulheres.
A pergunta que deve guiar o país agora
O que mais precisa acontecer para que a violência contra mulheres seja tratada como prioridade absoluta?
Allane e Layse não podem ter morrido em vão.
E nós, como sociedade, não podemos permitir que suas histórias sejam lembradas apenas como estatística.
Elas eram muito mais.
E mereciam muito mais.



