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[CRÍTICA] Morra, Amor - Jennifer Lawrence entrega sua performance mais brutal em drama psicológico que desmonta o mito da maternidade perfeita

  • Foto do escritor: Manú Cárvalho
    Manú Cárvalho
  • há 6 dias
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

LUZ, CÂMERA, CRÍTICA! — Por Manú Cárvalho

Morra, Amor - Filme
Foto: reprodução/divulgação/ Paris Filmes

“Morra, Amor”, adaptação do romance incendiário de Ariana Harwicz, surge como uma das obras mais inquietantes e emocionalmente dilacerantes de 2025. Dirigido por Lynne Ramsay e estrelado por Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, o filme não se limita a contar uma história: ele a vivisseca. É um cinema de carne viva, de pele exposta, de silêncio que sangra.


Ao transpor para a tela a jornada de uma mulher à beira do colapso psicológico após o nascimento do filho e a mudança para uma casa isolada no campo, Ramsay cria algo que desafia expectativas, perturba zonas de conforto e, sobretudo, respeita a selvageria emocional da maternidade, não aquela anunciada em comerciais, mas a que nasce da vulnerabilidade extrema do corpo e da mente. Desde o primeiro quadro, Morra, Amor afirma um pacto com o espectador: aqui não haverá polidez, não haverá romantização, não haverá o conforto do “vai ficar tudo bem”. Existe apenas uma mulher tentando sobreviver à própria mente. E talvez isso, por si só, seja a narrativa mais honesta que o cinema poderia oferecer.


A força de “Morra, Amor” não está apenas na história que conta, mas na forma como a conta. Lynne Ramsay, já conhecida por explorar subjetividades instáveis em filmes que testam os limites do corpo e do trauma, encontra aqui um terreno perfeitamente fértil para sua linguagem visual e sensorial. A câmera, inquieta como uma respiração fora do ritmo, se aproxima demais, se afasta demais, observa de ângulos que sugerem um mundo deslocado, assim como a protagonista. Não há qualquer esforço em seguir uma narrativa convencional; a diretora prefere o fragmento, o estilhaço, o lampejo, como se tentasse registrar a mente da personagem em tempo real, antes que ela derretesse por entre os dedos. Isso torna o filme uma experiência mais física do que racional, quase tátil, como se o espectador fosse convidado a atravessar o mesmo corredor estreito de emoções e sensações que aprisiona a protagonista. Os sons da casa, o vento cortante, o choro do bebê, o peso da solidão rural, tudo se amplifica até transformar o ambiente num organismo vivo, que respira e reage à instabilidade mental da personagem. É, ao mesmo tempo, perturbador e irresistível.


Jennifer Lawrence entrega aqui sua performance mais radical, corajosa e vulnerável desde que se tornou um dos rostos mais reconhecidos da indústria. Mas diferente de seus papéis anteriores, marcados ora pela intensidade dramática, ora pela energia física, em “Morra, Amor” ela se despe de qualquer máscara. Lawrence atua como se a pele não fosse barreira suficiente para conter tudo o que sua personagem sente. Há uma verdade em seu olhar que raramente vemos no cinema contemporâneo, uma verdade que incomoda. É uma mulher que ama e odeia na mesma fração de segundo; que deseja e rejeita; que implora por ajuda e repele a presença de quem tenta oferecê-la. Sua maternidade é ambígua, falha, tensa, e por isso mesmo profundamente humana. No rosto de Lawrence, a maternidade deixa de ser narrativa para se tornar impacto. Cada gesto parece carregado do peso de alguém que tenta, desesperadamente, não desaparecer. E é essa oscilação constante entre ternura e violência emocional que transforma a performance em algo arrebatador.


A mudança para a casa no campo funciona como metáfora e prisão. A natureza, que para muitos poderia significar paz, aqui se torna opressiva. Há algo de hostil naquele espaço aberto demais, silencioso demais, cheio de vida e, ainda assim, completamente paralisado.


A protagonista se sente vigiada pela paisagem, por árvores que não acolhem, por animais que atravessam o quadro como sinais de perigo, por um horizonte distante que nunca chega mais perto. É como se a casa, com seus ruídos irritantes, suas paredes frias, suas luzes que piscam, fosse uma extensão da psique fragmentada da personagem. Ramsay filma aquele espaço como um labirinto emocional, onde cada porta aberta revela mais um pedaço da mente em ruína. Mesmo nas cenas mais cotidianas, como a personagem caminhando pela cozinha, há uma tensão primal, um desconforto crescente que nunca se dissolve. Essa atmosfera claustrofóbica, mesmo em cenários amplos, é uma das marcas mais impressionantes do filme.


Robert Pattinson, em um papel cuidadosamente contido, serve como contraponto à implosão emocional da protagonista. Ele não é antagonista nem salvador; é testemunha. Sua presença é ao mesmo tempo necessária e insuficiente. A maneira como Pattinson contorna a narrativa — observando, tentando, falhando — adiciona uma camada de realismo ao filme. Ele representa aquela figura que existe em tantas histórias de maternidade, mas raramente é mostrada com tanta honestidade: o parceiro que não sabe como alcançar a mulher que ama enquanto ela se afoga diante dele. Seu silêncio diz mais do que qualquer discurso bem-intencionado poderia dizer. Ele olha, tenta compreender, mas não consegue atravessar a barreira invisível que o separa da protagonista. E essa incapacidade não surge como falta de afeto, mas como um retrato preciso de como a saúde mental pode erguer muros entre pessoas que antes dividiam a mesma vida.


O grande mérito de Ramsay, porém, é a recusa absoluta em transformar a psicose pós-parto em espetáculo. Não há sensacionalismo, não há exploração visual da dor. Ao contrário, há um respeito profundo por essa mulher, mesmo quando ela se mostra cruel, incoerente ou assustadora. A diretora entende que o colapso emocional não é um ato único, mas um processo contínuo, feito de microfracturas que não aparecem nos exames, mas se revelam no cotidiano: na dificuldade de amamentar, no incômodo com o toque, na sensação de inadequação que cresce como sombra. Ramsay não busca respostas, porque sabe que não existem respostas definitivas para estados emocionais tão complexos. O filme é sobre sentir, não sobre explicar. E por isso ele se torna tão poderoso.


A ligação com o romance de Ariana Harwicz é evidente em cada costura narrativa. Harwicz escreveu o livro como um grito, um grito poético, feroz, incômodo, sem filtros. Ramsay, por sua vez, transforma esse grito em imagem, mas sem o domesticar. Ao contrário de muitas adaptações literárias que suavizam o texto original para caber no cinema, Morra, Amor preserva o que há de mais essencial no livro: a maternidade como conflito existencial, o desejo como força destrutiva e vital, a natureza como espelho da própria desintegração.


Harwicz escreveu a protagonista como uma mulher que vive à beira do animal. Ramsay filma essa animalidade sem metáforas, permitindo que a personagem transite por estados emocionais que muitas narrativas contemporâneas têm medo de tocar. Há momentos em que a protagonista parece feroz; em outros, parece reduzida ao pó. A maternidade, longe de romantizada, aparece como acontecimento que desorganiza identidades, reorganiza violências internas, abre feridas que cicatrizam tortas. E talvez esse seja um dos pontos mais brilhantes do filme: a recusa em oferecer interpretação única. “Morra, Amor” não quer ensinar nada ao espectador. Quer apenas mostrar. E, ao mostrar, permite que cada pessoa encontre ali sua própria leitura da vulnerabilidade feminina.


A fotografia do filme merece destaque pela forma como traduz visualmente o caos emocional da protagonista. Tons frios, contrastes agressivos, texturas ásperas e uma paleta que alterna entre o verde do campo e o cinza de uma mente esgotada criam uma experiência estética que vai além da narrativa. A trilha sonora, fragmentada, crescente, às vezes quase inaudível, funciona como voz interna da protagonista. Há sons que parecem vir de dentro do corpo, não do ambiente. Há momentos em que o silêncio pesa mais do que qualquer grito. É um trabalho de composição sonora que transforma a experiência do filme em algo sensorial, quase imersivo. O espectador não apenas assiste: ele escuta; ele sente; ele respira junto.


O ritmo do longa, embora desafiador, é proposital. Ramsay não tem interesse em pressa. Ela quer que o espectador permaneça dentro daquele desconforto, sem chance de fuga. Cada cena se estende um pouco mais do que o esperado, e esse “mais”, esse pequeno excesso, é onde mora o impacto emocional. Há um compromisso da direção com a verdade emocional, e isso significa não aliviar a dor quando ela surge. É cinema que confia na inteligência e na sensibilidade do público, e por isso mesmo não o subestima. Quem espera uma catarse tradicional, uma resolução clara, uma curva dramática clássica, não a encontrará aqui. O filme é sobre desintegração, não sobre redenção.


“Morra, Amor” também se destaca por abordar temas raramente enfrentados com tamanha profundidade no cinema contemporâneo: a saúde mental materna, o desejo ambíguo, o impacto do isolamento, a culpa que atravessa todos os gestos, a sensação de inadequação que acompanha tantas mulheres no pós-parto. Mais do que isso, o filme mostra como as expectativas sociais, muitas vezes implícitas, esmagam mulheres que não correspondem ao ideal da mãe perfeita. E ao fazer isso, Ramsay amplia o debate para além da narrativa individual: ela aponta para a estrutura, para o silêncio, para o peso cultural que recai sobre corpos femininos desde sempre.


A força do filme está na sua honestidade brutal. Na forma como permite que a protagonista exista em toda a sua contradição. Na maneira como mostra que o amor materno não é sempre suave; às vezes é angústia, medo, desespero. Às vezes é nada. E isso não elimina sua humanidade, a intensifica. Ao final, o que resta não é a história em si, mas o impacto que ela provoca. “Morra, Amor” é um filme que permanece na pele, que continua quente muito depois dos créditos. É incômodo, é necessário, é urgente. É cinema que provoca. E cinema que provoca é cinema que fica.


Nota final: ⭐⭐⭐⭐ (4,0 estrelas)

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