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[CRÍTICA] Zootopia 2 - O retorno do brilho da Disney com uma aventura madura, emocionante e surpreendentemente humana

  • Foto do escritor: Manú Cárvalho
    Manú Cárvalho
  • há 5 dias
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

LUZ, CÂMERA, CRÍTICA! — Por Manú Cárvalho


Zootopia 2
Foto: reprodução/divulgação/Walt Disney Animation Studios

“Zootopia 2” chega nos cinemas em 27 de novembro de 2025 carregando uma responsabilidade gigantesca: suceder um dos filmes mais elogiados da Disney moderna, vencedor do Oscar e símbolo de uma animação que ousou tratar temas sociais complexos com inteligência, humor e ternura. Dirigido novamente por Byron Howard e Jared Bush e produzido pelo Walt Disney Animation Studios, o longa expande o universo vibrante da primeira história sem perder aquilo que o tornou um fenômeno: personagens imperfeitos, relações que evoluem, conflitos que dialogam com o mundo real e, claro, aquele equilíbrio raro entre leveza e profundidade que transforma entretenimento familiar em obra significativa. Com vozes de Monica Iozzi, Rodrigo Lombardi e Ginnifer Goodwin, o filme retorna à dupla Judy Hopps e Nick Wilde num momento em que Zootopia enfrenta novos desafios, mais íntimos e mais emocionais, mas igualmente urgentes e universais.


O que mais impressiona no início de “Zootopia 2” é como o filme consegue reintroduzir sua protagonista sem soar repetitivo. Judy já não é apenas a coelha otimista que quer provar algo para o mundo; agora ela enfrenta a pressão de ser uma policial reconhecida, símbolo de diversidade e expectativa. Há um peso novo em seus olhos, ainda que envolto na mesma bravura. A narrativa se permite mostrar o efeito das responsabilidades acumuladas, das cicatrizes invisíveis do primeiro filme e da maturidade que chega quando a realidade se torna mais densa. Essa camada emocional é apresentada com sutileza, mas também com coragem, porque a Disney já não teme mergulhar em temas que atravessam crianças e adultos: a sobrecarga, o medo de falhar, a necessidade de corresponder à imagem idealizada pelos outros. Judy continua sendo um farol, mas agora seu brilho vacila, e isso a torna ainda mais cativante.


Nick Wilde, por sua vez, ganha uma expansão narrativa que muitos fãs esperavam. Agora policial de fato, parceiro oficial de Judy, ele aparece dividido entre o orgulho de sua trajetória e a sensação de que ainda carrega fantasmas que o puxam para trás. A confiança que alcançou no primeiro filme se fragiliza diante das novas responsabilidades, e o roteiro de Jared Bush abraça essa insegurança com sensibilidade. Nick nunca foi um personagem simples; sua ironia sempre escondeu um histórico de rejeição, e “Zootopia 2” aprofunda esse dilema. Ao colocá-lo diante de um caso que exige revisitar partes difíceis de sua própria história, o filme acerta ao equilibrar humor e vulnerabilidade, uma combinação que funciona especialmente bem na voz expressiva de Rodrigo Lombardi na dublagem brasileira.


A direção de Howard e Bush demonstra domínio absoluto do universo que criaram. Aqui, Zootopia é ainda mais viva, mais extensa e mais variada. Há novos distritos, novas espécies, novos espaços urbanos que ampliam a sensação de imersão. A cidade segue funcionando como um espelho das grandes metrópoles: diversa, pulsante, desigual. Mas o que torna a continuação tão especial é a capacidade de explorar a intimidade dentro dessa grandiosidade. Se no primeiro filme o foco era a convivência entre predadores e presas como uma metáfora social, aqui a narrativa olha para dentro, para os indivíduos, suas relações e seus conflitos internos. “Zootopia 2” cresce, portanto, não no tamanho da ameaça, mas na profundidade do que ela significa.


É admirável como a Disney não subestima seu público. Crianças entendem a aventura; adultos entendem as camadas. A habilidade de tratar temas sérios, como ansiedade, identidade profissional e crises de confiança, sem abandonar o humor, torna o filme universal. Em muitos momentos, é possível sentir que a animação conversa diretamente com quem cresceu junto com a franquia. Há pequenas observações sobre a vida adulta que provocam risos melancólicos, porque soam reais demais. Essa maturidade narrativa nunca sacrifica a leveza e é justamente nessa combinação que o filme alcança seu impacto emocional.


O roteiro faz escolhas inteligentes ao criar um novo mistério para Judy e Nick. A trama se desenrola a partir de eventos aparentemente pequenos, cotidianos, que crescem em complexidade e revelam um conflito maior. Porém, ao contrário do primeiro filme, que mergulhava na estrutura social, esta sequência olha para os vínculos: amizades, parcerias, laços inesperados. A investigação funciona como motor, mas não como fim. O foco está na relação entre os protagonistas, que continua sendo o coração da história. É evidente que os diretores sabem disso, e por isso constroem uma dinâmica cheia de confiança, fricção, ironia afetuosa e momentos de vulnerabilidade compartilhada.


A química entre Monica Iozzi e Rodrigo Lombardi na versão brasileira permanece excelente. Iozzi entrega uma Judy mais madura, com nuances emocionais que potencializam a personagem. Sua interpretação consegue equilibrar o entusiasmo característico da coelha com o cansaço emocional que surge em seus momentos mais íntimos. Lombardi, por outro lado, traz um Nick mais reflexivo, às vezes mais silencioso, mas ainda carregado de humor afiado. A dublagem mantém o charme do primeiro filme e se torna um dos grandes destaques da experiência no Disney+. Ginnifer Goodwin também retorna com energia renovada na versão original, reforçando a essência calorosa e resiliente da personagem.


Visualmente, “Zootopia 2” é um deslumbre. A Disney demonstra novamente sua maestria técnica ao criar ambientes detalhados que mesclam com perfeição realidade e fantasia. A textura dos pelos, o movimento das multidões, a fluidez da ação, a iluminação que varia conforme os distritos, tudo contribui para uma experiência imersiva. O filme utiliza a estética para reforçar a narrativa emocional: cenários mais escuros refletem momentos de insegurança; cores vibrantes surgem quando Judy e Nick redescobrem seu próprio propósito. É animação no mais alto padrão artístico, onde cada detalhe é proposital e significativo.


A trilha sonora segue a mesma linha, com composições que valorizam tanto a tensão quanto a ternura. Há momentos em que a música atua quase como uma segunda voz para os personagens, indicando emoções que não são verbalizadas. A produção demonstra maturidade ao evitar exageros; muitas cenas são conduzidas pelo silêncio, permitindo que as expressões faciais e o peso das situações falem por si. Essa sensibilidade musical amplia o impacto emocional do longa.


O grande diferencial de “Zootopia 2”, no entanto, está na coragem de mostrar que crescer é desconfortável. Há uma melancolia suave que percorre a narrativa, a percepção de que nem todas as respostas chegam na hora certa, de que até os heróis duvidam da própria capacidade. Isso não torna o filme triste; torna-o humano. A animação assume que amadurecer dói, mas também liberta. E ao acompanhar Judy e Nick em suas respectivas jornadas emocionais, o espectador é convidado a reconhecer suas próprias dores e descobertas.


É notável como o filme respeita a inteligência do público ao não cair no didatismo. As metáforas são claras, mas nunca sublinhadas. Quando Judy se vê diante de escolhas difíceis, o roteiro não entrega soluções fáceis. Quando Nick precisa confrontar verdades desconfortáveis sobre si mesmo, a narrativa não protege o personagem. Essa honestidade é um dos trunfos mais poderosos da história; é o tipo de maturidade que faz uma sequência não apenas justificar sua existência, mas ampliá-la.


Há ainda momentos de humor brilhantes, daqueles que misturam esperteza com observação social. “Zootopia 2” sabe rir de si mesmo, do mundo contemporâneo e das contradições da vida urbana, sem nunca ferir ou infantilizar a inteligência de quem assiste. As referências culturais são numerosas, mas sempre usadas a serviço da história. Crianças riem pelos motivos óbvios; adultos, pelos motivos mais profundos. É esse tipo de escrita que sustenta filmes que atravessam gerações.


O clímax do longa é conduzido de forma admirável, com tensão crescente que não depende de grandiosidade visual, mas de emoção. Quando tudo parece prestes a ruir, a relação entre os protagonistas, a confiança em si mesmos, a paz dentro da cidade, a narrativa encontra soluções criativas que reforçam a força dos laços entre os personagens e das escolhas que fazem. É emocionante sem ser manipulativo, tocante sem ser piegas. É exatamente a síntese daquilo que fez o primeiro filme conquistar o mundo.


Ao final, “Zootopia 2” prova que é possível criar uma continuação que honra o original, amplia seu universo e apresenta novas camadas emocionais sem sacrificar o que o tornou especial. A produção de Byron Howard e Jared Bush é madura, divertida, sensível e profundamente conectada com questões que atravessam a vida contemporânea. A combinação entre direção afiada, roteiro inteligente, dublagem inspirada e estética primorosa transforma o longa em mais do que um entretenimento familiar: ele se torna uma reflexão delicada sobre quem somos quando ninguém está olhando, sobre a coragem necessária para assumir nossas falhas e sobre a força dos vínculos que constroem quem somos.


“Zootopia 2” reafirma a Disney como uma potência criativa capaz de entregar histórias que conversam com todos os públicos, histórias que abraçam, inquietam, divertem e emocionam em igual medida. É uma sequência que não vive à sombra do original; ela brilha com luz própria.

Nota final: ⭐⭐⭐⭐✨ (4,5 estrelas)

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